Ashes of Creation: O Colapso do MMORPG dos Sonhos

A Promessa que Virou Pesadelo para Milhares de Jogadores

Nós da Central MMORPG acompanhamos de perto a trajetória de Ashes of Creation desde seu ambicioso Kickstarter em 2017. O que era para ser o renascimento do gênero MMORPG transformou-se em um dos maiores escândalos da história dos jogos online. A Intrepid Studios, desenvolvedora por trás do projeto, colapsou de forma espetacular em janeiro de 2026, apenas semanas após o lançamento do Early Access na Steam. O fundador e CEO Steven Sharif renunciou ao cargo, 123 funcionários foram demitidos, e agora acusações de fraude multimilionária dominam as manchetes. Neste artigo da Central MMORPG, vamos desvendar toda a cronologia desse desastre que abalou a comunidade MMORPG mundial.

O Início: Uma Campanha de Kickstarter que Encantou o Mundo

Em maio de 2017, Steven Sharif lançou a campanha de Kickstarter para Ashes of Creation com uma meta de US$ 750 mil. A proposta era sedutora: um MMORPG de mundo aberto em alta fantasia, sem pay-to-win, onde as ações dos jogadores moldariam literalmente o mundo de Verra. A resposta da comunidade foi avassaladora. A meta foi atingida em menos de 12 horas, e ao final da campanha, em junho de 2017, quase 20 mil apoiadores haviam contribuído com mais de US$ 3,27 milhões.

Sharif apresentava-se como um empresário bem-sucedido que estava investindo sua própria fortuna no projeto. O que poucos sabiam na época era que o background financeiro de Sharif vinha de sua participação na XanGo, uma empresa de marketing multinível (MLM) que comercializava produtos nutricionais. Sharif ingressou na empresa aos 18 anos e, segundo ele próprio, acumulou uma fortuna significativa com o negócio. Essa conexão com o universo de MLM já gerava desconfiança em parte da comunidade desde os primeiros dias do projeto, mas a paixão que Sharif demonstrava pelo gênero MMORPG convenceu a maioria dos apoiadores.

Oito Anos de Desenvolvimento e Promessas

O que se seguiu foram mais de oito anos de desenvolvimento marcados por promessas grandiosas, demonstrações de gameplay periódicas e uma loja de cosméticos que continuava arrecadando dinheiro de uma base de fãs leal. A Intrepid Studios cresceu ao longo dos anos, chegando a empregar cerca de 200 funcionários dedicados ao projeto.

Durante esse período, nós acompanhamos os diversos alphas e testes que mantinham a comunidade engajada, embora o progresso parecesse, para muitos, mais lento do que o esperado. A questão do financiamento sempre foi um ponto sensível. Sharif afirmava publicamente que o jogo era em grande parte autofinanciado por sua fortuna pessoal. Porém, como revelariam os eventos de 2026, a realidade era bem diferente. Segundo documentos que vieram à tona posteriormente, o estúdio teria levantado mais de US$ 100 milhões ao longo de sua existência através de investidores privados, incluindo uma alegada contribuição de US$ 80 milhões do investidor Robert Dawson e US$ 12,5 milhões de Jason Caramanis.

O Lançamento do Early Access: O Último Suspiro

Em 11 de dezembro de 2025, Ashes of Creation finalmente chegou ao Steam em formato de Early Access por US$ 49,99, marcando a fase Alpha Two do desenvolvimento. Para muitos jogadores que aguardavam havia quase uma década, era o momento tão esperado de finalmente pisar no mundo de Verra. O lançamento gerou US$ 3,7 milhões em vendas pela Steam, um número que se tornaria central nas disputas legais que se seguiram.

No entanto, a alegria durou pouco. Em meados de janeiro de 2026, começaram a surgir os primeiros sinais de que algo estava gravemente errado nos bastidores da Intrepid Studios. No dia 30 de janeiro, uma livestream de desenvolvimento que revelaria o roadmap do primeiro trimestre foi misteriosamente adiada para fevereiro. O que veio a seguir chocou toda a comunidade.

A Explosão: Renúncia de Sharif e Demissão em Massa

No dia 31 de janeiro de 2026, jogadores e fãs notaram que múltiplos funcionários da Intrepid Studios haviam alterado seus perfis no LinkedIn para “open to work” — um número muito maior do que os nove funcionários demitidos dias antes. Horas depois, Steven Sharif publicou uma mensagem devastadora no Discord oficial do jogo.

“O controle da empresa se afastou de mim, e o Conselho começou a dirigir ações com as quais eu não poderia concordar eticamente ou executar. Como resultado, escolhi renunciar em protesto em vez de emprestar meu nome ou autoridade a decisões que não poderia apoiar eticamente”, escreveu Sharif. Ele acrescentou que, após sua saída, grande parte da equipe de liderança sênior também renunciou, e que o Conselho emitiu notificações sob o WARN Act e procedeu com uma demissão em massa.

Em 10 de fevereiro de 2026, uma notificação oficial do WARN Act, registrada na Califórnia, confirmou o fechamento permanente da Intrepid Studios, com 123 funcionários perdendo seus empregos. O sonho de Ashes of Creation, ao que tudo indicava, havia chegado ao fim.

A Guerra de Acusações: Fraude, Desvio e Sabotagem

O que se seguiu ao colapso foi uma avalanche de acusações que a Central MMORPG acompanha com atenção. O caso desdobrou-se em múltiplas frentes legais que pintam quadros completamente diferentes dependendo de qual lado você ouve.

O Lado dos Investidores

Em meados de fevereiro de 2026, o investidor Jason Caramanis concedeu uma extensa entrevista ao criador de conteúdo NefasQS, apresentando documentos internos e fazendo alegações gravíssimas. Segundo Caramanis, que afirma ter perdido US$ 12,5 milhões no investimento, Sharif nunca teria investido um centavo do próprio bolso no projeto, contrariando completamente a narrativa pública de que Ashes of Creation era autofinanciado.

As acusações vão além. Caramanis alega que Sharif e o CFO da empresa, John Moore (parceiro de Sharif), recebiam salários anuais de US$ 500 mil cada. Também afirma que Sharif se recusou a liberar os livros financeiros e registros fiscais por nove anos, e que nenhuma reunião formal do Conselho foi convocada durante esse período, apesar de Caramanis ter recebido a promessa de um assento no board desde 2019.

Talvez a acusação mais grave seja a de que, nos últimos dias da Intrepid, os investidores propuseram um plano de reestruturação: cada investidor injetaria 25% do valor original de seus investimentos, 60-70% dos funcionários seriam demitidos para manter um “esqueleto” operacional, e Sharif continuaria como Diretor Criativo, mas com remuneração atrelada ao desempenho da empresa em vez de participação societária. Sharif teria exigido manutenção de sua participação acionária e, ao ser recusado, renunciou e — segundo Caramanis — cometeu um “ato de sabotagem”: teria enviado uma carta ao Commerce Bank e à Valve para redirecionar os US$ 3,7 milhões das vendas do Early Access para pagar o empréstimo de sua própria casa, em vez de destiná-los ao pagamento dos funcionários em 1º de fevereiro.

O Lado de Steven Sharif

Sharif não ficou em silêncio. Em 18 de fevereiro de 2026, ele entrou com um processo judicial contra Robert Dawson, Ryan Ogden, Theresa Fette, Aaron Bartells, a TFE Games Holding e a própria Intrepid Studios. Na ação de 39 páginas, Sharif acusa o conselho de “sabotar intencionalmente” o estúdio para “roubar seus ativos” e alega que Dawson especificamente tentou “extorquir o controle” da empresa para seu próprio ganho financeiro.

O processo afirma que Dawson, através de “repetidas ameaças de reter financiamento para a folha de pagamento, de fechar a Intrepid e até de causar danos físicos ao autor”, forçou uma reestruturação corporativa em maio de 2024 que consolidou seu poder de voto. Sharif nega categoricamente ter desviado fundos da empresa e busca danos e medidas cautelares contra o que ele chama de tentativa do conselho de destruir a empresa por ganância.

Revelações Bombásticas: A Riot Games e os US$ 140 Milhões

O processo de Sharif também revelou detalhes surpreendentes. Segundo os documentos judiciais, uma grande corporação — posteriormente identificada como a Riot Games — teria tentado adquirir a Intrepid Studios entre 2022 e 2023. Se confirmado, esse dado revela que o projeto tinha valor real de mercado aos olhos de um dos maiores nomes da indústria, o que torna a destruição do estúdio ainda mais trágica para os jogadores.

Enquanto isso, os números circulando nas alegações de ambos os lados são impressionantes. Caramanis acusa Sharif de ter acumulado US$ 140 milhões em dívidas durante a gestão da empresa. O IP e os ativos de Ashes of Creation estão agora, segundo Caramanis, nas mãos de Robert Dawson, o maior investidor, que estaria “explorando suas opções” quanto ao futuro desenvolvimento do jogo através da entidade TFE Games Holding.

E os Jogadores? A Corrida por Reembolsos e Ações Coletivas

Para nós jogadores, o cenário é desolador. Imediatamente após o colapso, uma corrida por reembolsos tomou conta da Steam, que aparentemente passou a conceder exceções em sua política de devoluções para compradores de Ashes of Creation. A Valve, inclusive, teria cortado relações com a Intrepid Studios no início de fevereiro.

Os apoiadores originais do Kickstarter, no entanto, encontram-se em uma situação muito mais complicada. Na página original da campanha, havia uma promessa de que, caso o jogo não fosse lançado, todos os apoiadores receberiam reembolso integral. Com o estúdio fechado e múltiplos processos judiciais em andamento, a viabilidade dessa promessa é, na melhor das hipóteses, incerta. Discussões sobre ações coletivas já estão em andamento tanto nos fóruns da Steam quanto em comunidades como o Reddit, com advogados recomendando que apoiadores do Kickstarter documentem seus pledges e as declarações públicas de Sharif.

O Que Resta de Ashes of Creation?

No momento em que a Central MMORPG publica este artigo, em fevereiro de 2026, a situação permanece extremamente volátil. Os servidores do jogo chegaram a permanecer online brevemente após os layoffs, mas sem equipe de manutenção, o futuro operacional é insustentável. Robert Dawson, atual detentor do IP, supostamente está tentando convencer ex-desenvolvedores a retornar para dar continuidade ao projeto sob nova gestão, mas com a guerra judicial em pleno vapor, o cenário é caótico.

O caso Ashes of Creation representa, para a nossa comunidade, um alerta poderoso. Mais de US$ 100 milhões em investimentos, US$ 3,27 milhões em crowdfunding, oito anos e meio de desenvolvimento, e o sonho de centenas de milhares de jogadores — tudo consumido por disputas internas, alegações de fraude e uma governança corporativa que, independentemente de qual lado esteja com a razão, falhou espetacularmente.

Lições para a Comunidade MMORPG

Na visão da Central MMORPG, o colapso de Ashes of Creation nos ensina algumas lições dolorosas. Primeiro, a importância da transparência financeira em projetos financiados por crowdfunding. Segundo, os riscos de confiar cegamente na narrativa de um fundador carismático sem mecanismos independentes de prestação de contas. E terceiro, que o gênero MMORPG, apesar de sua comunidade apaixonada, continua sendo um dos mais arriscados e complexos da indústria de games para se desenvolver.

Continuaremos acompanhando cada desdobramento deste caso e trazendo todas as atualizações para vocês. O mundo de Verra pode estar em ruínas, mas a nossa comunidade permanece forte e vigilante.

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Equipe Central Mmorpg

Este Artigo foi desenvolvido pela equipe da Central MMORPG, somos apaixonados por jogos e trazemos os melhores conteúdos para vocês.

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